Precariedade na orquestra

Leleco Pimentel vai acionar MPT contra “pejotização” e prepara projeto que equipara salários da Sinfônica à Filarmônica

O deputado Leleco Pimentel (PT) anunciou, nesta quarta-feira (18/3), duas iniciativas em defesa dos músicos da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais: vai acionar o Ministério Público do Trabalho (MPT) para investigar a prática da “pejotização” — contratação irregular de músicos e artistas como MEI (Microempreendedor Individual) — e prepara projeto de lei para equiparar os salários da Sinfônica aos da Filarmônica. Os anúncios foram feitos durante audiência pública da Comissão de Cultura da ALMG, convocada para avaliar a situação da orquestra após a demissão da maestra Lígia Amadio, ocorrida em janeiro de 2026, cerca de 40 dias depois de ela denunciar publicamente a precariedade salarial da instituição.

Pejotização na mira do Ministério Público do Trabalho

Uma das denúncias mais graves levantadas na audiência foi a prática da chamada “pejotização” — a contratação de músicos e artistas que, na prática, exercem vínculos empregatícios, mas são obrigados a receber como MEI, o que os priva de direitos trabalhistas fundamentais. O deputado Leleco Pimentel (PT) anunciou que vai acionar o Ministério Público do Trabalho (MPT) para apurar e combater essa irregularidade, que deverá ser também objeto de requerimento de convocação do presidente da Fundação Clóvis Salgado, Sérgio Rodrigo Reis, cuja ausência na audiência foi criticada pelos parlamentares.

Projeto de lei equipara salários da Sinfônica à Filarmônica

Leleco Pimentel também adiantou que já elabora um projeto de lei para equiparar os salários dos músicos da Orquestra Sinfônica aos da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. A distorção entre as duas orquestras mantidas com recursos públicos no estado é um dos pontos centrais da injustiça denunciada pelos trabalhadores da cultura.

O deputado lembrou que, dos 83 músicos necessários para manter a Sinfônica em pleno funcionamento, apenas 33 são efetivos — um déficit de 60%. Em gesto de reconhecimento, pediu que todos os presentes ficassem de pé para um minuto de silêncio em homenagem à maestra.

 

“Devemos um pedido de desculpas a esta mulher guerreira, competente, profundamente sensível e que assumiu a causa dos músicos.”

Leleco Pimentel  ·  Deputado estadual (PT)


“Receio político”, mas falava pela orquestra

O presidente do Sindicato dos Músicos Profissionais do Estado de Minas Gerais, Antônio Viola, revelou que Lígia Amadio tinha consciência dos riscos que corria ao falar publicamente. Segundo ele, a maestra tinha receio político em apontar as precariedades e distorções salariais — mas ainda assim o fez, porque falava pela orquestra, não por si mesma. No dia seguinte às suas declarações na ALMG, foi interpelada pelo governo. Semanas depois, demitida. Sua demissão gerou manifestações de solidariedade em países como Espanha, Alemanha e Argentina, onde Lígia Amadio é reconhecida por sua trajetória artística.

Viola foi direto ao denunciar a permanência do problema: “Se houvesse um concurso hoje, o salário inicial seria próximo a um salário mínimo. São verdades incontestáveis, incômodas, e deveriam ser incômodas para todo mundo.

“Famílias mantidas por uma coisa chamada arte”

O 1º trompetista assistente da Orquestra Sinfônica, Claudiomarcus Floriano, resumiu com precisão e emoção a realidade vivida pelos colegas.

“Famílias mantidas por uma coisa chamada arte.”

Claudiomarcus Floriano  ·  1º trompetista assistente da Orquestra Sinfônica de MG

Ele próprio relatou ter passado por cirurgia ocular sem poder tirar licença, pois perderia o adicional por apresentações. “Temos colegas em tratamento de câncer que tiveram que comparecer. Uma colega de perna quebrada foi levada de cadeira de rodas ao palco”, denunciou. Sobre Lígia Amadio, foi direto: “Nos meus 25 anos de casa, nenhum maestro se posicionou em favor da orquestra como ela fez.” E lamentou que a regente, nesta semana, já esteja trabalhando no México: “Nós perdemos essa pessoa e não sei se ela volta.”

Salários aviltantes, bicos obrigatórios

Antes de ser demitida, Lígia Amadio havia revelado que um músico iniciante da Sinfônica recebe R$ 1.618,72 por mês. O cantor Paulo Henrique Campos Silva, do Coral Lírico, comparou: em São Paulo, a remuneração dos músicos supera R$ 12 mil.

O presidente da Comissão de Cultura, deputado Professor Cleiton (PV), apontou que entre 2019 e 2025 a variação do IPCA foi de 54,15%, mas o governo concedeu apenas 14,15% de recomposição salarial — uma perda real superior a 30%. No mesmo período, o Estado concedeu R$ 120 bilhões em renúncias fiscais. “É uma decisão política de sucatear o espaço da cultura“, criticou.

Próximos passos

Insatisfeitos com as respostas evasivas das representantes do governo e com a ausência do presidente da Fundação Clóvis Salgado, Sérgio Rodrigo Reis, Leleco Pimentel e a deputada Lohanna (PV) anunciaram requerimento para sua convocação. A deputada Andréia de Jesus (PT) também prestou solidariedade à maestra, avaliando que a regente defendeu direitos coletivos e foi alvo de perseguição.

Os dois parlamentares ainda defenderam a incorporação dos adicionais por apresentação à remuneração permanente dos integrantes da Orquestra e do Coral — medida que impediria que músicos doentes ou acidentados fossem forçados a se apresentar para não perder parte do salário.


Fotos: Elizabete Guimarães/ALMG
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