Déficit habitacional de 6 milhões contrasta com 11,4 milhões de imóveis vagos no Brasil
Moradia digna, reforma urbana e justiça social estiveram no centro do debate realizado na Assembleia Legislativa de Minas Gerais dentro da Campanha da Fraternidade 2026.

Contradição social exposta em números
O secretário-executivo do Regional Leste 2 da CNBB, padre Rodrigo Souza da Silva, chamou atenção para o paradoxo habitacional brasileiro. Segundo ele, o país contabiliza 90,7 milhões de domicílios, sendo 6,6 milhões de uso ocasional — destinados a veraneio ou ocupação esporádica.
Dados recentes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) também apontam cerca de 300 mil pessoas em situação de rua no Brasil, evidenciando a profundidade da desigualdade no acesso à moradia.
“Não podemos desprezar os dados, nem sermos indiferentes”, afirmou. Ele defendeu a priorização da política habitacional no orçamento público e questionou a destinação de recursos federais. “De um orçamento superior a R$ 1 trilhão, cerca de 40% vão para o pagamento da dívida, enquanto apenas 0,003% são destinados à moradia.”
Para o representante da CNBB, é preciso “corrigir a compreensão da moradia como mercadoria” e retomar o sentido social do direito à habitação, em consonância com a doutrina social da Igreja e com o espírito da Campanha da Fraternidade, que busca fomentar fraternidade, solidariedade e justiça social.

Pioneirismo no Parlamento mineiro
O deputado estadual Leleco Pimentel (PT) destacou a importância de a ALMG abrir espaço institucional para o debate sobre habitação e reforma urbana, lembrando o pioneirismo da criação da Comissão Extraordinária de Defesa da Habitação e da Reforma Urbana.
Ele também mencionou a lei da autogestão como instrumento fundamental para fortalecer a participação popular na construção das políticas públicas. “Nada de nós sem nós”, afirmou, ao defender que as comunidades sejam protagonistas nas decisões sobre seus territórios.
Leleco criticou ainda o que classificou como desmonte de órgãos históricos, como a Cohab, e a ausência de prioridade do governo estadual para políticas habitacionais. Segundo ele, a moradia segue tratada de forma estigmatizada, mas chamou a atenção: “Até os pássaros constroem onde morar”, disse.
Justiça social e responsabilidade coletiva
A vice-presidenta da ALMG, deputada Leninha (PT), que representou o presidente da Casa, Tadeu Leite, lembrou as lutas travadas no Parlamento mineiro em defesa da população mais vulnerável. Ela destacou a importância de trazer ao debate temas que provoquem a reflexão sobre justiça social e reafirmou o reconhecimento à religiosidade e à devoção do povo mineiro, bem como o valor da solidariedade.
O coordenador-geral da Pastoral Metropolitana dos Sem Casa, Carlos Alberto Santos da Silva, reforçou que a crise habitacional extrapola o campo religioso. “Não é um problema da Igreja, mas sim um problema social”, afirmou.
Também participaram da mesa a representante da Associação Pastoral Nacional do Povo da Rua (ASPAN), Claudenice Rodrigues, além do deputado federal Padre João (PT-MG), integrante do projeto Juntos para Servir.
Ao final da sessão, a avaliação predominante foi de que enfrentar o déficit habitacional exige vontade política, revisão de prioridades orçamentárias e o reconhecimento da moradia como direito básico para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna.
Brasil: o retrato da desigualdade na moradia
Déficit Habitacional
6 milhões
de pessoas não possuem casa própria.
Imóveis Vazios
11,4 milhões
de imóveis estão vagos ou desocupados.
Quase o dobro do déficit.
Total de Domicílios no País
90,7 milhões
de domicílios registrados.
Uso Ocasional
6,6 milhões
de imóveis são de uso ocasional (veraneio, fim de ano, etc.).
Situação de Rua
300 mil
pessoas vivem em situação de rua no Brasil
(dados recentes da UFMG)
